O nosso querido Papa Francisco em várias
ocasiões denunciou profeticamente a cultura do descartável
que predomina em nossa sociedade secularizada e paganizada, que é
marcada fortemente pelo consumismo e pelo hedonismo. Nesse triste
contexto social em que vivemos, a vida humana é cada vez menos
valorizada e podemos até dizer que se estabeleceu em nosso meio uma
mentalidade utilitarista, onde os relacionamentos entre as
pessoas são cada vez mais superficiais e interesseiros, e as pessoas
passam a valer apenas pela utilidade que possuem. Quem não produz
acaba sendo deixado de lado à margem da sociedade; pois para essa
diabólica lógica só merece viver dignamente quem pode ter alguma
utilidade ou que produza algo de bom para o bem estar da sociedade.
Assim, são descartados os idosos, os jovens e as
crianças, especialmente os nascituros. Daí podemos entender porque
tantos governos, organizações e corporações capitalistas desejam a
descriminalização do aborto e da eutanásia, e porque tantos casais
não desejam mais ter filhos e preferem cuidar do cachorrinho ou de
outro animalzinho de estimação. Muitos casais pensam que cuidar de
um filho gera muitas despesas e requer muito desprendimento, o que
os impediria de ganharem mais dinheiro ou de viajarem para Paris ou
fazerem um cruzeiro marítimo.
Muitas mulheres inclusive renunciam à
maternidade só para não perderem a promoção no emprego ou para
fazerem sua “tão sonhada” pós-graduação e se vangloriarem de seus
títulos acadêmicos e de sua “igualdade” com os homens. Até mesmo o
casamento é deixado para segundo plano, pois pode representar um
obstáculo para a ascensão social.
Por outro lado, muitas empresas com má índole não
admitem em seus quadros de funcionários mulheres grávidas e fazem
pressão para que não engravidem, correndo o risco de perderem o
emprego. Até mesmo em muitas famílias que se dizem cristãs, onde o
amor ao dinheiro se tornou a regra suprema, uma gravidez indesejada
de uma filha, por exemplo, pode se tornar um grande obstáculo que
deve ser descartado, e assim sujam de sangue inocente as suas mãos,
muitas vezes as mesmas mãos que se estendem para receber o Corpo de
Cristo na Eucaristia.
Sim, meus irmãos, até mesmo pessoas
religiosas, ao menos na aparência, entraram nessa perversa lógica
dominante, onde o dinheiro, o poder e o prazer se tornaram a regra
suprema de suas vidas. Aparentemente são bons cristãos, mas
interiormente são verdadeiros demônios ávidos por dinheiro e
prestígio. De falsos irmãos como esses, infelizmente, nossas
comunidades cristãs estão cheias. Abandonaram a fé e caíram na
idolatria. Que nós também não caiamos nessa tentação demoníaca.
No Evangelho de São Lucas temos uma emblemática
passagem que ilustra muito bem essa cultura do descartável
que predomina em nossa sociedade contemporânea, mostrando que esse
mal já existe há muito tempo e remonta ao pecado original nos
primórdios da humanidade. No episódio do possesso de Gerasa onde
Jesus realiza um grande exorcismo expulsando uma “Legião” de
demônios de um pobre homem que vivia no cemitério como um mendigo
andarilho (conf. Lc 8, 26-39), percebemos que aquela comunidade pagã
da Decápole tratava aquele possesso como se fosse um animal perigoso
e que devia ser mantido à distância, longe do convívio social,
chegando inclusive a acorrentá-lo.
Ninguém se importava com aquele
atormentado homem, que numa lógica mundana, não possuía nenhuma
serventia. Pelo contrário, para os gerasenos aquele homem era um
estorvo que deveria viver longe da sociedade e ser tratado como um
bicho selvagem, ou melhor, dizendo, deveria ser tratado muito pior
que um bicho selvagem.
Ao mesmo tempo, os gerasenos pareciam tratar
muito bem dos seus animais domésticos, especialmente daqueles que
lhe davam algum lucro, e que numa lógica mundana, tinham alguma
serventia.
Enquanto os habitantes de Gerasa não se
importavam com o sofrimento daquele homem possesso, eles davam
grande importância ao seu rebanho de porcos, pois os porcos tinham
para eles uma grande importância financeira.
Nosso Senhor Jesus Cristo ao realizar esse
exorcismo inverte a lógica das coisas, e a pedido dos próprios
demônios que atormentavam por tantos anos aquele pobre homem,
envia-os aos porcos que se precipitam nas águas do lago de Genesaré
e morrem afogados. E o povo ao ficar sabendo disso pede para Jesus
ir embora daquele lugar.
Aquele povo pagão, que vivia na
idolatria, não suportou a presença de Deus no meio deles, e diante
de tão grande teofania, isto é, diante de tão grande
manifestação de Deus no meio deles, pedem amedrontados para Jesus ir
embora.
Não compreenderam o gesto de Jesus que libertou
aquele homem possesso devolvendo-lhe a dignidade de pessoa humana, e
preferiram viver nas trevas do pecado e da idolatria ao invés de
aceitarem a luz de Deus que chegava até eles na Pessoa Divina de
Nosso Senhor Jesus Cristo.
Assim como os habitantes da Gerasa dos
tempos de Jesus, a nossa sociedade moderna contemporânea se tornou
uma sociedade idólatra, que faz do dinheiro o seu “deus”,
sacrificando no seu “altar” inúmeras vidas humanas, especialmente as
mais frágeis e indefesas.
Podemos concluir essa breve reflexão, que analisa
a nossa realidade à luz da Palavra de Deus e da fé, que os valores
de nossa sociedade atual estão completamente invertidos; pois para
muitas pessoas a vida de um cachorro ou de um gato vale mais que uma
vida humana. É muito triste termos chegado a esse ponto, onde a vida
humana se tornou um mero acessório que eu posso descartar a meu
bel-prazer, assim como eu descarto uma latinha de refrigerante
vazia.
Uma ativista dos “direitos dos animais”
ao ser entrevistada por um famoso jornal televisivo, chegou ao
extremo de dizer que não poderia escolher entre a vida de seu filho
e a de seu cachorro de estimação. Para a maioria das pessoas ainda,
uma afirmação fundamentalista e irracional como essa pode parecer um
absurdo, mas ela já reflete a enfermidade moral em que vivemos.
Existe em muitos movimentos sociais, financiados
por grandes corporações capitalistas, uma ferrenha oposição à ordem
natural da Criação querida e estabelecida por Deus, que se manifesta
em um ódio irracional contra a vida humana, a família tradicional e
as liberdades fundamentais, como a liberdade religiosa, por exemplo.
E esse ódio irracional e diabólico se
torna visível em declarações infelizes como dessa ativista
“petmaníaca”, que infelizmente possui uma “Legião” de seguidores.
E quem pensa que somente esses fanáticos
extremistas de algumas ONGs é que perverteram os valores de nossa
sociedade, está muito enganado. Esses infelizes extremistas são
apenas as maiores vítimas dessa ideologia dominante. Essa inversão
de valores já está fortemente enraizada em nossa cultura e muitos de
nós sem perceber já aderiu a essa onda politicamente correta
que assola a nossa sociedade.
Quando vemos em algumas pequenas cidades
mais clínicas veterinárias do que clínicas que cuidam de pessoas,
não está aí um sinal de alerta de que algo está errado? Enquanto
tantos gastam milhares de reais com seus cães, muitas pessoas não
têm acesso a um sistema de saúde decente e sofrem nas mãos de maus
médicos e nos corredores de hospitais públicos superlotados.
Enquanto tantos pais de família desejariam pagar um plano de saúde
para seus filhos, existem madames cocotas que pagam caríssimos
planos de saúde para seus cachorrinhos. E quantos pais
irresponsáveis e inconseqüentes que enchem suas casas de cachorros,
gatos, tartarugas e papagaios tornando o ambiente desumano, fétido e
sujo, e expondo seus filhos a esse tipo de degradação ambiental?
Muitos animais são tratados com mais amor e
carinho do que as pessoas da própria família, e isso já não é mais
exceção. Até mesmo nomes de pessoas são dados aos animais de
estimação e ninguém mais se escandaliza com isso.
É claro que devemos tratar bem os animais
e lhes dedicar carinho e atenção, mas o que está acontecendo é uma
total inversão de valores, onde a vida humana não é mais respeitada
e está perdendo totalmente o seu valor e a sua sacralidade.
O Papa Francisco escreveu recentemente uma
belíssima encíclica intitulada “Louvado sejas”, de cunho
sócio-ambiental, que trata também desse assunto, além de tratar da
questão do cuidado de nossa casa comum, a mãe Terra. Todo cristão e
pessoas de boa vontade deveriam ler esse revolucionário ensinamento
do Magistério da Igreja, que tem muito a contribuir para o futuro da
humanidade e de nosso planeta.
Que Nossa Senhora, a Rainha das Famílias,
interceda por nós nesse tempo conturbado em que vivemos, para que
sejamos sempre fiéis a se Filho Jesus Cristo e obedientes aos
ensinamentos da Santa Mãe Igreja. Amém!!! |